quarta-feira, 8 de julho de 2015

Reflexões do Destino

Essa reflexão começa justamente com uma história triste que tomou conta dos noticiários da última semana. Um jovem cantor no auge de sua carreira, bem-sucedido, usufruindo dos frutos do seu trabalho e do sucesso recém conquistado. Tinha tudo o que o dinheiro podia comprar. Foi convidado para fazer um show em uma cidade próxima a sua. Já de madrugada, logo após o show, resolve voltar para casa.
Em casa, os familiares descansam na tranquilidade e segurança que um lar nos proporcionam, com a ideia que ele está apenas voltando, em um caminho que possivelmente fez outras tantas vezes. Na manhã seguinte muitos estão ansiosos para saber como foi o show.

Mas, o que ninguém poderia se quer imaginar aconteceu. Chega o dia seguinte e uma notícia que deixaria qualquer manhã acinzentada, mesmo com o sol radiante, é recebida. E, ao invés do carro e da presença do seu ente querido, Cristiano Araújo, o que chega é o aviso de que um acidente aconteceu no meio do caminho. O chão perde sua estabilidade, por uma fração de minutos parece que o mundo parou, apenas o que ecoa é a pergunta de um pai, que mesmo sem entender, questiona: “Será que Deus realmente existe?”. Afinal seu filho que havia voltado inúmeras vezes, até de lugares mais distantes, dessa pequena viagem não iria mais voltar. E não só para aquela família mas para inúmeras pessoas que gostavam não só da pessoa mais também do seu trabalho viram que o canto que outrora alegrava hoje dava tristeza justamente pela lembrança que ele trazia em meio a suas estrofes musicais. Um acidente, talvez uma fração de segundo, e tudo o mais que ele tinha planejado para toda uma vida, afinal estamos falando de um jovem, se foi.
Com tudo que estamos vendo e que possivelmente ainda veremos. Poderíamos falar sobre a questão da segurança nos carros, afinal pelo que tem sido noticiado existem uma infinidades de fatos relacionado a essa temática, fato esses como a não utilização de cinto de segurança na parte de trás do veículo, ou o excesso de velocidade. Ou até mesmo poderíamos abordar uma visão sobre como a vida é frágil, que em uma questão de escolhas todas aquelas coisas que sonhávamos e planejávamos fazer podem terminar em um momento.
Afinal todas essas temáticas, poderiam ser abordadas por esse blog cujo o foco é a família. Mas resolvi fazer uma reflexão um pouco mais profunda. Resolvi observar pelo prisma da vida familiar, sob a ótica do fato de não voltar para casa, de não ter a conclusão dos sonhos mais significativos e pelo fato de que possivelmente ele deixou de falar algo para pessoas queridas. Na ansiedade de voltar prematuramente pela madrugada significou a ausência pelo resto da vida.
Você parou para pensar que muitos de nós, como o Cristiano Araújo, também estamos envolvidos em nossas lutas diárias pelo sucesso? Pois o sucesso é relativo e individual, ou seja varia de pessoa para pessoa. Então provavelmente não estamos fazendo shows, subindo em palcos, fazendo muito dinheiro. Mas com certeza estamos trabalhando muitas horas, indo de um lugar para outro, gastando o tempo que temos em busca da realização profissional, da satisfação material e também de sentimento de sucesso que a vida promete oferecer.
Assim como na história do cantor, podemos estar planejando voltar para casa assim que terminarmos. Podemos pensar que só precisamos trabalhar um pouco mais, e então estaremos resolvidos. Só precisamos agir um pouco mais, cuidar um pouco mais, gastar mais algumas horas, e tudo estará terminado.
Essa situação me lembrou de um professor que tive o privilégio de conhecer, mesmo que por um breve momento, no curso de pós-graduação. Professor Adalcir, esse era o seu nome, era um jovem senhor, magro e negro. Era uma pessoa simpática, nos recebia sempre com um grande sorriso no rosto, parecendo que éramos amigos de longa data. Tanto que a instituição o colocava para abrir o curso e ser o primeiro professor das novas turmas, e também era o professor que finalizava o curso. Era um cara não somente carismático, mas um profundo conhecedor da matéria que lecionava, esse conhecimento foi adquirido através de vários anos de uma vida profissional muito corrida, e de muita luta, por isso que resolvi colocar como característica a sua cor de pele, pois sabemos como é difícil ter pessoas negras em uma posição de destaque e chefia no nosso país. Ocupou cargos de direção em diversas empresas e lecionava para diversas faculdades de renome. Paralelo a isso ainda tocava projetos pessoais como empresa de consultoria e um curso preparatório para certificação. Em resumo, sua vida era bastante atribulada, mas em algumas conversas informais, nos “coffee break” entre uma aula o outra, sempre deixava bem claro que aquilo era um momento, que um dia ele iria “voltar para casa”. Que daria mais tempo para família e para as coisas que realmente gostava de fazer como lazer.
Mas o curso continuou e fui aprovado em sua disciplina, e os encontros acabaram. E embalado com suas histórias de sucesso, fui me empenhando cada vez mais no trabalho, chegava mais cedo e saia cada vez mais tarde, não foram poucos os dias que sai da empresa apenas quando só tinha o segurança noturno no prédio. Meus filhos normalmente via apenas dormindo, pois sai junto com o raiar do sol e só voltava quando suas cobertas já estavam quentes.
Realmente estava achando que era isso o correto que seria a fazer, não só para mim mais também para o futuro da minha família. Tanto que resolvi adiantar a pós para durante a semana também. E foi em uma dessas aulas a noite, que recebi a notícia inesperada. O prof. Adalcir havia falecido a cerca de uns 2 meses, ou seja, pouco depois do nosso último encontro em sala de aula. E essa notícia me fez refletir e muito no rumo da minha vida, e fez com que eu mudasse radicalmente o meu jeito de pensar.
E essa história do cantor me fez recordar desse momento da minha vida, todas as reflexões, todas as conversas que tive com minha esposa. E relembrar os inúmeros caso em que falei “Só um minutinho. Estou terminando” e se passavam na verdade horas. Horas essas que poderia está aproveitando com meu filhos como faço hoje.
Às vezes, pensamos que realmente iremos resolver os nossos problemas em apenas 15 minutos, mas na verdade estamos apenas nos afastando do que realmente é importante, não apenas para nós, mais principalmente para as pessoas que mais amamos.
Mas nem sempre conseguimos ver por esse lado, nem sempre conseguimos as coisas conseguem ser resolvidas dessa forma. Muitas vezes, nos perdemos no “é só mais um minutinho”, ou então: “É só mais essa vez”, ou mesmo “Depois de dezembro, tudo vai ser diferente”. Parece que nossa tendência é deixar a mudança para um momento posterior, quando tudo estará resolvido. Infelizmente, esse depois muitas vezes não chega. Ou quando chega, não traz as mesmas realizações que almejávamos para nós. Por essa razão, continuamos em busca de algo que ainda não alcançamos. E a vida passa, as oportunidades se vão, os relacionamentos se deterioram.
Mesmo assim, não paramos para pensar, pelo menos até que notícias como a de um jovem e promissor cantor, de apenas 29 anos, morreu voltando para sua casa de um show, ou seja, do seu trabalho. E não precisa ser um acidente fatal, mas algo que realmente não iriamos querer para nossas vidas. Algo como um caso extraconjugal. Ou a notícia tardia de que os filhos estão envolvidos com drogas.
Em muitos desses casos as pessoas não entendem, se perguntam “como ele foi capaz de fazer isso?” e até mesmo retiram sua culpa “e fiz e dei tudo que ele precisava”. Mas o que às vezes o que as pessoas não entendem que muitas das vezes o que a outra pessoa quer é apenas a presença, apenas o carinho e o apoio daquele que por achar que o maior valor da vida é o monetário, está distante.
E assim como o acidente fatal que o cantor sofreu, esses outros exemplos também são fatores que podem interferir na volta para casa. Pelo menos não como você gostaria que voltasse. Sua esposa pode não estar mais lá, e seus filhos ou filhas podem não ser mais os mesmo meninos ou meninas que você NÃO viu crescer, mas achou que viu justamente por estar cuidando do que para você era o que eles mais precisavam. Mas entenda a vida não é feita de materialidade, mas sim de sentimento. Assim como nem sempre estudar nos melhores colégio da cidade, fará com que se torne advogados ou engenheiros de sucesso. Nem sempre dar tudo de material para as pessoas que mais amamos é o melhor que temos para dar.
Pelo contrário, o melhor que temos para dar é justamente o que valor monetário nenhum pode comprar. O melhor que o professor Adalcir pode me dar foi sua simpatia. E no caso do cantor, para seus parentes vocês acham que ele será lembrado por suas músicas ou por sua presença na vida de cada uma? Não estou falando que então vamos todos ficar em casa e não trabalhar para passar mais tempo com nossas famílias. E nem estou falando para virarmos hippies. Mas estou querendo dizer, que precisamos refletir, se realmente estamos fazendo a coisa certa e se realmente estamos dando o que as pessoas que mais gostamos e nos importamos estão precisando, pois nem sempre a vida tem o tempo que esperamos ou imaginamos. 

Então temos que viver como na música do legião urbana, é preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã pois na verdade o amanhã pode não existir. E o voltar para casa nunca chegar.

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